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A música: braços acústicos que nos sustentam – Rozany Terezinha Pozza Ribeiro Aliceda
Nduduzo Siba é uma mulher sul-africana que veio ao Brasil como imigrante ilegal e foi presa pouco depois de chegar ao país. Entrevistada pela Folha de São Paulo*, que reuniu depoimentos de imigrantes, ela diz: Aprendi a falar português na prisão…lá consegui libertar minha música …. À noite, eu abria a janela da minha cela e cantava. Todo mundo cantava comigo, isso acalmava os bebês que passavam a noite chorando na ala materna.
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Muitos artigos psicanalíticos apontam que desde o início da vida, incluindo a fetal, os órgãos dos sentidos geram experiências sensíveis que vão se inscrevendo na mente dentro de uma perspectiva dual: contato/perda de contato, ser segurado/ser largado (Prat, p.253). A princípio, são os elementos táteis que geram essas experiências e, posteriormente, com o amadurecimento, soma-se o olfato, equilíbrio, gustação, audição e visão. São todos elementos geradores de excitações que vão sendo vivenciados, pelo pequeno ser, como presença ou ausência. Essa vivência intervalada vai fornecendo matéria-prima para a discriminação eu-não eu, sem a qual a mente mergulharia em estados psicóticos, autísticos ou de não-integração.
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Para que o bebê possa reunir suas tantas experiências sensoriais ainda incompreensíveis, ele deve contar com a “solidez e a credibilidade da atenção do ambiente e, principalmente da mãe” (Prat, p.258) que funcionando em contínuos ajustes imprimem um ritmo e permitem uma sintonia mãe-bebê.
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Chamamos de holding a esta provisão ambiental que oferece sustentação psíquica às necessidades do bebê protegendo-o das invasões excessivas do entorno. Este cuidado vai além do que é oferecido pelo cuidador pois, para o bebê, podemos dizer que o ambiente também é uma presença de impacto, com seus cheiros, sua temperatura, seus ruídos e tudo o mais que emana de sua atmosfera sensível (Likerman).
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Penso no ambiente da penitenciária: mulheres estranhas umas às outras colocadas no mesmo espaço (via de regra, reduzidíssimo), tolhidas em sua liberdade e afastadas de quase tudo o que dá suporte a identidade (família, trabalho, amizades, objetos pessoais…). Elas têm um espaço, mas a condição é precária, transitória e sem intimidade; há um lugar físico, mas psiquicamente não podemos dizer que estão abrigadas.
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Penso num bebê: as angústias frente aos estados de não integração, a tênue linha de continuidade do seu ser, estímulos incompreensíveis vindos de toda a parte que podem produzir o horror de cair infinitamente (F. Tustin). Por sua condição imatura, os bebês não reúnem condições de integrar essas experiências e, portanto, encontram-se ainda desalojados do seu próprio corpo. O contorno necessário a eles poderá ser oferecido pelos braços (pele, calor, voz, ritmo…) da mãe que, por sua vez, precisará também ser abraçada por um ambiente acolhedor e suficientemente previsível.
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Como uma mãe encarcerada, ela própria tão desalojada, poderá dar continência às angústias de desalojamento do seu bebê?
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Não haveria um sério risco de que esses bebês, em suas vivências duais, experimentem mais o ser largado do que o ser segurado, com tudo o que isso pode implicar de registros traumáticos?
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Volto a Nduduzo quando ela diz: quando comecei a andar, meu pai, meus irmãos, todo mundo já estava cantando músicas para sincronizar meu corpo. Para ela, cantar era se reconectar com sua história, sua cultura, sua identidade. E é na prisão, sozinha, nesse lugar estranho à ela, outra língua, outro país, que ela recupera, através da musicalidade, os objetos internos protetores e a intimidade com aquilo que a constituiu. Na música, ela encontra um abrigo. E mais, seu canto reverbera e desperta um universo de experiências arcaicas comuns às mulheres produzindo um contágio: elas começam a cantar junto com Nduduzo.
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Os espaços impessoais da carceragem adquirem uma dimensão acústica que envolve todas elas numa experiência emocional em uníssono.
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….Todo mundo cantava comigo, isso acalmava os bebês que passavam a noite chorando na ala materna.
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A sensorialidade, nessa experiência sintônica, banha melodicamente o ambiente transformando-o numa pele que tece um continente capaz de envolver as mães da ala materna.
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A parte desabrigada, desamparada dessas mulheres é abraçada e embalada por esse envelope acústico caloroso. As mães se acalmam e seus bebês podem agora, enfim, dormir.
*Em reportagem atual (31/10/2021), há a informação de que Nduduzo Siba reconstruiu sua vida como cantora, atriz e dançarina e é ativista de movimentos de direitos humanos, mas ainda não recebeu indulto e pode ser expulsa do país. Estamos na torcida para que ela permaneça no Brasil.
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Bibliografia
LIKERMAM, Meira. O significado clínico da experiência estética. Revista Brasileira de Psicanálise v.28(2): 279-307, 1994.
PRAT,Regine.: A pré-história da vida psíquica: seu devir e seu traços na ópera do encontro e do processo terapêutico. Revista de psicanálise de SPPA, v.15(2): p. 247-268, 2008
TUSTIN, Francis. ”Barreiras autisticas em pacientes neuróticos” Porto Alegre Ed Artes Medicas 1990
ANZIE, Didier. O Eu-Pele. São Paulo: Casa do Psicólogo,1989
DATAS COMEMORATIVAS

Dia Internacional da Mulher
A TODAS AS ROSAS
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Não a ignores
Tao pouco a ataques
Não a escravizes
Sobretudo não a temas
Apenas evite os espinhos
Não exagere na poda
Esteja próximo
Só a proteja das pragas
Regue com boa água
Afofe a terra apenas
E ela florescerá
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Maysa Dias Ayres
08/03/2022

Queridos amigos e colegas
Este Natal de 2020, mais do que qualquer outro,
nos lembrou intensa e profundamente
o sentido de vida, união e renascimento.
Nunca fomos tão convocados a exercitar:
a Tolerância
para com as diferenças e incertezas,
a Paciência
com o que está além do nosso conhecimento e controle,
a Resignação
com nossas impotências frente ao inevitável,
a Aceitação
de nossos defeitos e limitações.
Mas também,
a Esperança
no desenvolvimento da compaixão e na compreensão da nossa imperfeita Humanidade.
Assim, desejo um Natal de luz, e um 2021 de amor e saude a todos.
Um grande abraço
Maysa Dias Ayres
02/01/2021

Dia internacional das mulheres
Pensei em escrever algo sobre este dia e muitas dúvidas me vieram à cabeça.
Parece que tudo já foi dito a respeito, a sensibilidade das mulheres a qual faz este mundo melhor, a força, a coragem, a delicadeza…
Todos ingredientes indispensáveis para qualquer mulher seja qual for a sua condição, pobre, rica, estudada ou não, seja qual for a sua raça, a sua cor, o seu credo, se alegre ou triste, saudável ou não.
Todos ingredientes necessários para lidar com a vida, com mãe e pai, com marido, filhos, amigos, trabalho e todas as alegrias ou augúrios desta vida inclusive com essa pandemia que trouxe à tona e exacerbou muitas das misérias humanas, como a ganância, o egoísmo, a maldade levando muitas dessas mulheres a uma situação desesperadora por não ter sequer alimento para oferecer para os seus filhos.
E assim caminha a humanidade.
Feliz dia internacional das mulheres por tudo o que já se alcançou e muita força pois ainda temos muito a conquistar.
Fátima Geha
Presidente do Núcleo de Psicanálise
do Norte do Paraná
08/03/2021




