A música: braços acústicos que nos sustentam – Rozany Terezinha Pozza Ribeiro Aliceda
- Horeb Silva
- 6 de fev. de 2025
- 3 min de leitura

A música: braços acústicos que nos sustentam
Nduduzo Siba é uma mulher sul-africana que veio ao Brasil como imigrante ilegal e foi presa pouco depois de chegar ao país. Entrevistada pela Folha de São Paulo*, que reuniu depoimentos de imigrantes, ela diz: Aprendi a falar português na prisão…lá consegui libertar minha música …. À noite, eu abria a janela da minha cela e cantava. Todo mundo cantava comigo, isso acalmava os bebês que passavam a noite chorando na ala materna.
Muitos artigos psicanalíticos apontam que desde o início da vida, incluindo a fetal, os órgãos dos sentidos geram experiências sensíveis que vão se inscrevendo na mente dentro de uma perspectiva dual: contato/perda de contato, ser segurado/ser largado (Prat, p.253). A princípio, são os elementos táteis que geram essas experiências e, posteriormente, com o amadurecimento, soma-se o olfato, equilíbrio, gustação, audição e visão. São todos elementos geradores de excitações que vão sendo vivenciados, pelo pequeno ser, como presença ou ausência. Essa vivência intervalada vai fornecendo matéria-prima para a discriminação eu-não eu, sem a qual a mente mergulharia em estados psicóticos, autísticos ou de não-integração.
Para que o bebê possa reunir suas tantas experiências sensoriais ainda incompreensíveis, ele deve contar com a “solidez e a credibilidade da atenção do ambiente e, principalmente da mãe” (Prat, p.258) que funcionando em contínuos ajustes imprimem um ritmo e permitem uma sintonia mãe-bebê.
Chamamos de holding a esta provisão ambiental que oferece sustentação psíquica às necessidades do bebê protegendo-o das invasões excessivas do entorno. Este cuidado vai além do que é oferecido pelo cuidador pois, para o bebê, podemos dizer que o ambiente também é uma presença de impacto, com seus cheiros, sua temperatura, seus ruídos e tudo o mais que emana de sua atmosfera sensível (Likerman)
Penso no ambiente da penitenciária: mulheres estranhas umas às outras colocadas no mesmo espaço (via de regra, reduzidíssimo), tolhidas em sua liberdade e afastadas de quase tudo o que dá suporte a identidade (família, trabalho, amizades, objetos pessoais…). Elas têm um espaço, mas a condição é precária, transitória e sem intimidade; há um lugar físico, mas psiquicamente não podemos dizer que estão abrigadas.
Penso num bebê: as angústias frente aos estados de não integração, a tênue linha de continuidade do seu ser, estímulos incompreensíveis vindos de toda a parte que podem produzir o horror de cair infinitamente (F. Tustin). Por sua condição imatura, os bebês não reúnem condições de integrar essas experiências e, portanto, encontram-se ainda desalojados do seu próprio corpo. O contorno necessário a eles poderá ser oferecido pelos braços (pele, calor, voz, ritmo…) da mãe que, por sua vez, precisará também ser abraçada por um ambiente acolhedor e suficientemente previsível.
Como uma mãe encarcerada, ela própria tão desalojada, poderá dar continência às angústias de desalojamento do seu bebê?
Não haveria um sério risco de que esses bebês, em suas vivências duais, experimentem mais o ser largado do que o ser segurado, com tudo o que isso pode implicar de registros traumáticos?
Volto a Nduduzo quando ela diz: quando comecei a andar, meu pai, meus irmãos, todo mundo já estava cantando músicas para sincronizar meu corpo. Para ela, cantar era se reconectar com sua história, sua cultura, sua identidade. E é na prisão, sozinha, nesse lugar estranho à ela, outra língua, outro país, que ela recupera, através da musicalidade, os objetos internos protetores e a intimidade com aquilo que a constituiu. Na música, ela encontra um abrigo. E mais, seu canto reverbera e desperta um universo de experiências arcaicas comuns às mulheres produzindo um contágio: elas começam a cantar junto com Nduduzo.
Os espaços impessoais da carceragem adquirem uma dimensão acústica que envolve todas elas numa experiência emocional em uníssono.
….Todo mundo cantava comigo, isso acalmava os bebês que passavam a noite chorando na ala materna.
A sensorialidade, nessa experiência sintônica, banha melodicamente o ambiente transformando-o numa pele que tece um continente capaz de envolver as mães da ala materna.
A parte desabrigada, desamparada dessas mulheres é abraçada e embalada por esse envelope acústico caloroso. As mães se acalmam e seus bebês podem agora, enfim, dormir.
*Em reportagem atual (31/10/2021), há a informação de que Nduduzo Siba reconstruiu sua vida como cantora, atriz e dançarina e é ativista de movimentos de direitos humanos, mas ainda não recebeu indulto e pode ser expulsa do país. Estamos na torcida para que ela permaneça no Brasil.
Bibliografia
LIKERMAM, Meira. O significado clínico da experiência estética. Revista Brasileira de Psicanálise v.28(2): 279-307, 1994.
PRAT,Regine.: A pré-história da vida psíquica: seu devir e seu traços na ópera do encontro e do processo terapêutico. Revista de psicanálise de SPPA, v.15(2): p. 247-268, 2008
TUSTIN, Francis. ”Barreiras autisticas em pacientes neuróticos” Porto Alegre Ed Artes Medicas 1990
ANZIE, Didier. O Eu-Pele. São Paulo: Casa do Psicólogo,1989




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