Um pouco sobre o trabalho do psicanalista
- npnpinfo
- 28 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Por: Sylvio Schreiner

Na escuta psicanalítica, o silêncio que paira no consultório muitas vezes diz mais do que os discursos muitas vezes eloquentes. É nesse terreno movediço, feito de palavras ditas e não ditas, que o analista se move, não como um técnico que aplica um método, mas como alguém que oferece sua presença viva como instrumento de trabalho. Como bem disse o psicanalista André Green, o analista escuta com o corpo inteiro. Escuta com os sentidos tradicionais, é claro, mas também com aquilo que Bion, outro importante psicanalista, chamava de "reverie": uma forma de acolher, dentro de si, a experiência emocional bruta do outro, para ajudá-la a adquirir forma e sentido.
A sessão analítica não é um espaço neutro onde se analisa de fora o sofrimento. É antes um campo de intensas trocas afetivas, muitas vezes inconscientes, onde o analista precisa se colocar como continente, como uma mente que suporta e transforma o que, para o paciente, ainda é informe, excessivo, insuportável. Não se trata de "saber" ou "explicar", mas de estar em um estado de disponibilidade psíquica, afetiva e emocional: algo que exige do analista um longo percurso de formação e uma constante autotransformação. Daí a importância para o analista fazer o mais extensamente possível a sua própria análise e até, de tempos em tempos, a sua reanálise.
O desafio, portanto, não está apenas em compreender o que o paciente traz, mas em suportar o que ele não consegue dizer, ou seja, aquilo que emerge como silêncio carregado, como um olhar vago, uma pausa súbita, um gesto repetido. O analista precisa desenvolver uma escuta afinada não apenas às palavras, mas ao afeto que pulsa por trás delas. Deve-se perceber quando uma fala é uma defesa, quando é um pedido de ajuda, quando é um ataque disfarçado. E, mais difícil ainda, o analista deve reconhecer tudo isso em si mesmo, pois é atravessado pelo o que sente do que vive durante a sessão, o que não é um erro, mas um instrumento clínico fundamental, se manejado com responsabilidade.
Nesse sentido, a técnica analítica não é uma receita, mas uma ética. Envolve o manejo da transferência, o uso da interpretação, a sustentação do enquadre, mas, acima de tudo, exige a capacidade de ser afetado sem se confundir, de acolher sem se anular, de pensar em meio ao caos emocional do outro. Requer uma escuta que não é passiva, mas intensamente ativa e sensível. Sem essa escuta encarnada (corporal, sensível, empática), como alerta André Green, a análise se esvazia, perde sua potência transformadora e se reduz a um exercício estéril de decodificação intelectual.
O analista que não se deixa tocar, que não se compromete emocionalmente com o processo, talvez ainda não tenha entendido que a análise não é apenas sobre o inconsciente do outro, mas sobre o encontro entre dois inconscientes em trabalho. E que é esse encontro, misterioso e profundamente humano, que pode abrir caminhos novos para o paciente e também para o próprio analista. Pois cada sessão é também, de algum modo, um momento de renascimento, onde ambos se transformam, mesmo que silenciosamente.




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