REFLEXÕES PSICANALÍTICAS: E AGORA, O QUE NOS RESTA - por Maria Rita Gaspar Goulart Moreschi
- Horeb Silva
- 5 de fev. de 2025
- 5 min de leitura

Quando em março de 2020, dois dias antes do “pequeno Coronavírus”, como um “gigante asteroide” se chocar contra nós, fui surpreendida por um possível contato com uma pessoa infectada. Perplexa e exposta à visível ameaça física, barrei a paciente que chegava naquele horário. Temi por ela? Por ambas? Começava a pandemia para mim! Senti que estávamos dentro de algo inexplicável.
Todos abruptamente sendo pausados em suas dinâmicas rotineiras. O vetor habitual que nos levava para o mundo externo foi bloqueado. Padrões automatizados e condicionados dentro de nós, rompidos. De um dia para outro, o caos! E agora, o que nos resta? Cada ser só poderia viver esse momento histórico de acordo com a singularidade de sua paisagem mental (Barros et al., 2020).
Para mim, era como se uma fenda abrisse o tempo e os hábitos. O atendimento on-line a pessoas no projeto SOS (Save Our Souls) Brasil, me fazia sentir lutando numa guerra. Contudo, sobrevivi a ela nutrida da gratidão de acessar o outro em sofrimento e em lugares tão distantes. Como nada parece haver de aleatório dentro das leis cósmicas, lembrei da impecável coerência do cosmo em todas as escalas da natureza (Laszlo, 2004). Poderia essa desordem pandêmica caber na compreensão da nova matemática, de que o caos não é inimigo da ordem, pelo contrário, seria a terra natal da ordem? (Abraham R. et al.,1992).
Lidando ainda com o inesperado abalo em nosso mundo, encontro em Rupert Sheldrake o entendimento de que há um sistema de hábitos em andamento, e num certo sentido, a materialidade do mundo e sua resistência à imaginação se devem ao fato de que tudo se acha profundamente encaixado no hábito. Entregues a si mesmos, esses hábitos simplesmente se fossilizariam, o mundo se tornaria repetitivamente habitual se não houvesse outros processos em andamento.
O caos permanente no universo e a expansão contínua deste revelam que os hábitos estão sendo continuamente rompidos por acidentes, inclusive em nossas próprias vidas, rompidos por mudanças no desenvolvimento. “São acidentes inesperados, que criam vácuos em cujo âmbito, podem surgir novas condições e possibilidades” (Abraham R. et al.,1992, p. 37). Sendo assim, poderíamos mudar o vértice de observação? Perguntar-nos se era chegada a hora de algo velho ruir e a despeito do horror, violência e destruição, nós que ainda estamos sobrevivendo, virmos a criar o novo?
Neste ponto da vereda a arte nos alcança: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Poderiam estas palavras de Guimarães Rosa, em seu “Grande Sertão Veredas”, ressoar em nós nesse momento? Talvez, na coragem de mudarmos a direção do vetor que aponta prevalentemente para as incansáveis veredas externas, virmos a sustentar um novo olhar e trânsito pelas infinitas e obscuras veredas do nosso mundo interno. Afinal, este é o que sempre esteve ali, ao nosso alcance. Este ‘ser-tão’ imenso, do nosso mundo interno, ou não? Dar boa acolhida às assombrosas veredas, eventualmente sem pontes, entre nosso mundo interno/externo, inconsciente/ consciente, infantil/adulto, simbólico/não simbólico, mental/ protomental, psicótico/não psicótico…
No entanto, há perigos, riscos, ameaças! A consciência de Hamlet – o louco e lúcido príncipe – sobre a podridão no reino da Dinamarca, resultou numa das mais mortais tragédias de Shakespeare. Então, o que nos resta? Nesse humano e temido impasse que nos encontramos é como se o coração mental parasse de bater, oscilar, pulsar, viver. Inevitavelmente, aqui, encontro-me com Bion, Freud, Sócrates e muitos outros! Para ver o que não é visível, devemos cegar-nos artificialmente. Desfocar para “ver/ imaginar/intuir o outro lado, aquele que está oculto, mas que ao mesmo tempo está ali, no outro lado do outro e no outro lado de mim” (Trachtenberg, 2022, p.159), assim como o lado oculto da lua. Quando Bion sugere ao psicanalista lançar um facho de intensa escuridão ao desconhecido, visualizo as luzes diurnas, aquelas acostumadas a ver o mesmo lado de mim, se apagando.
E no momento da escuridão pandêmica do mundo, impedidos de manter velhos hábitos de viver, pensar, sentir e interagir, uma nova perspectiva se apresenta ao nosso olhar. E agora, essa espécie de visão noturna a que fomos forçados, nos permitiria capturar a profundidade e nuances nas sombras, do outro e de mim? Gosto da afi rmação de Einstein de que “a imaginação é mais importante que o conhecimento” (Avalon, 2003, p. 38), ela está de acordo com a importância dada por Bion às conjecturas imaginativas como ferramentas de investigação (Grotstein, 2010).
Bion também nos encoraja a mantermos os terminais abertos para captar os sinais da realidade última, venham eles de onde vier (Rezende, 2014). Essas associações se ligam também à possibilidade de fazer pontes entre os diferentes quebra-cabeças do cosmos, como o faz Laszlo (2004), o genial fi lósofo da ciência, já citado anteriormente. Ele ensina que no universo “in-formado”, ou seja, num campo unifi cado de registros, nossa mente/cérebro é alcançada por uma larga faixa de informações, muito além daquelas transmitidas pelos nossos órgãos dos sentidos. Estamos, ou podemos estar, literalmente “em contato com quase qualquer parte do mundo, seja aqui na Terra ou além dela, no cosmos, e quando não reprimimos as intuições correspondentes, podemos ser informados por coisas tão pequenas quanto uma partícula ou tão grandes como uma galáxia” (Laszlo, 2004). Penso que intuições podem ser sinais em conexão com o mar da energia do vácuo quântico, e se bem aproveitadas são in-formações sobre nossa singularidade, nosso pulsar, nosso existir, a cada passo das veredas do imenso ‘ser-tão’ nós mesmos. A pergunta se reapresenta: E agora, o que nos resta?
Referências
ABRAHAM, R.; McKENNA, T.; SHELDRAKE, R. “Caos, Criatividade e o Retorno do Sagrado”. 1992.
AVALON, M. “Einstein Por Ele Mesmo”. 2003
BARROS,A. R. et al. Paisagens da Vida Mental Sob a Covid. “Reunião Científi ca da SBPSP”. 2020.
GROTSTEIN, J. “Um Facho de Intensa Escuridão – O legado de W. Bion à Psicanálise”. 2010
LASZLO, E. “A Ciência e o Campo Akáshico – Uma teoria Integral de Tudo”. 2004
REZENDE, A. M. “Bion e o Futuro da PsicanáliseExpansão do Universo Mental”. 2014
TRACHTENBERG, R. O lado Oculto da Lua. “Revista Brasileira de Psicanálise”, v. 56, n. 2, pp. 143-163, 2022.
* Médica pela Universidade Federal do Paraná Psiquiatra pela Associação Brasileira de Psiquiatria Psicanalista, Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, fi liada à Associação Internacional de Psicanálise e à Federação Brasileira de Psicanálise. Membro Fundadora do Núcleo de Psicanálise do Norte do Paraná. Supervisora e Professora de Psicanálise em Maringá e Londrina Coordenadora do Ateliê de Psicanálise em Maringá
(O texto também foi publicado na edição número 46 da revista do Instituto Psicologia em Foco)




Comentários